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quinta-feira, 23 de março de 2017

QUE SAUDADES DAS MORUGENS...

"Parecem agriões ao microscópio, mas tão saborosos e tenros.
Apenas existem no estado selvagem.
Quando o tempo assume o seu ar primaveril e as aguas cristalinas dos ribeiros, se escoam pelas bordas dos lameiros, parecem ervas daninhas a medrar, mas tão preciosas...
Bem lavadinhas em agua corrente e temperadas, a acompanhar com uns peixinhos do rio Dão e um naco de broa, escoa-se uma pipa de tinto!".

(assim comentei aqui meia dúzia de anos atrás...)


Nós, gentes da aldeia, somos um tolos quando lembrámos uma coisa e ficamos a cismar ,num misto de ternura e vergonha das agruras da vida. Ai se a vida era boa e saudável nesses tempos!! Agora e de quem de tais ainda se lembra "parece mal" dizerem que comeram isto que vos trago, como se fossem miseráveis famintos de outrora...
Nada disso, agora iguarias pagas a peso de ouro, tal como as azedas, baldroegas e agrião selvagem, num mundo "moderno" que lambe a "beiça" regalados pelo que era deitado ao "vivo".
A foto faz-me percorrer caminhos quase do antanho. Traz com ela, o ribeiro dos Moncões, a ribeira de Cabreira e por tantos lugares, os Carregais. Lados em que houvesse água corrente das poças, os regos eram salpicados pelas morugens. Nas Andrôas, as repesas eram fartas em agrião, pequeno de folha, mas o mais saboroso. Bastava arregaçar as calças na água fria apesar do sol e apanhar os mais apetecíveis. Curioso era o silêncio quebrado pelo nosso chapinhar, o salto das rãs e a passarada louca em fazer os ninhos. 
Tempo depois e tratada, a salada era a rainha da mesa, fosse ela de carne ou peixe.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Ali por Março ou Abril...

Nos últimos dias estive a reler umas páginas do livro Penaverde, sua Vila e Termo, do Pe. Luís Ferreira de Lemos e encontrei um trecho que sublinhei 'há muito'...e que hoje trago aqui. Espero que apreciem:
"Ali por Março ou Abril, consoante, começa a faina agrícola. Pouco a pouco, o manto verde que a terra foi cobrindo depois dos 'codos do inverno', agora marchetado de boinas, malmequeres e miríades de flores sem nome, começa a virar-se do avesso, para albergar, no seio criador, as primeiras sementes das batatas temporãs".


Foto de Forninhos, do albúm de memórias de Luís Pires, filho da ti Ilda e ti Zé Cardoso.

quinta-feira, 9 de março de 2017

A festa do pastor na Feira Nova

Trazem as ovelhas mais dotadas para o concurso, engalanadas a preceito, tal como eles ainda carregam nos ombros a antiga manta ou samarra e nas mãos o eterno cajado e a boina ou chapéu enterrados na cabeça...



Faltam apenas três dias para esta festa familiar ser convivida a preceito, longe dos holofotes televisivos, mas no pouco que ainda vai sobrevivendo no seu modo ancestral em que os prémios são simbólicos - tal como as inscrições - mas haverá muito queijo autêntico para quem quiser comprar e convívio, enquanto a barriga e as gargantas puderem, à moda das nossas gentes.
É de facto a festa do pastor, no modo genuíno como aqui se apresentam com os seus rebanhos...
Que seja uma bela Festa!

sábado, 4 de março de 2017

As cores da aldeia

Depois dos sons da aldeia que ficaram até hoje e dos cheiros, vou agora recordar as cores de Forninhos para aí nos anos 70 e 80.
Havia cores bonitas por todos os lados. 
Alguns exemplos:
- O verde dos campos de erva e dos nabais; dos pinheiros e da folhagem das oliveiras.
- O branco da neve e da geada; das giestas brancas (no tempo delas), da escola, da igreja, da capela e das poucas casas caiadas, pois a maioria das habitações tinham o granito à mostra.
- O amarelo das mimosas que existiam na Eira e no Passal; das flores das giestas (as maias)  e também do milho nas lages e o sol descorado de fim de verão.


mimosas em flor

Mas havia mais amarelos:
- o dos fenos e centeio secos da Primavera/Verão.
- As miríades flores do campo: brancas, amarelas, azuis e rosa.
- O violeta dos rosmaninhos.
- O avermelhado das vinhas no Outono
- A cor dos frutos maduros das cerejeiras, macieiras, figueiras, videiras, oliveiras...
- O próprio arco-íris em dias de sol e de pouca chuva.

P.S: Agradeço reconhecidamente a fotografia à amiga Gracinha do blogue: 
https://crocheteandomomentos.blogspot.pt/

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

À fala com os animais...

Não eram assim tantos os animais que as pessoas tinham em casa, ainda assim quero evocar a maneira como as pessoas chamavam cada espécie dos animais da casa.
Então que animais havia nas casas de Forninhos? Havia o cão e o gato e, claro, os inevitáveis (e indesejáveis) ratos. Num galinheiro no pátio da casa ou no espaço por baixo do balcão, patim das escadas, havia as galinhas e o galo. Ocasionalmente uns perus e uns patos. De vez em quando também havia uns coelhitos numa coelheira. No cortelho ficava o marrano que havia de dar para todo o ano. Nos baixos da casa, havia as vacas e o burro ou burra. Se a família vivia melhorzinho podia ter um cavalo. Perto de casa, no curral havia as ovelhas e as cabras. 
Mas vamos então às formas de chamamento de cada animal.



Os gatos
Havia uma relação próxima com os gatos. No meu tempo alguns já tinham nome, mas quando era para virem comer algumas espinhas chamavam-nos sempre assim:
-biiichiiinhooo, bsbsbsbsbs...
E lá vinham os gatos ter com quem lhe dava comer ou queria acarinhar e consolar.

Os cães
Chamavam-se pelo nome, não havia cão sem nome:
- Mondego! Anda cá.
Para dar ordens assobiava-se. Cada assobio, uma ordem.

As galinhas
Não tinham nome. Quando se lhes punham milho ou couves no chão o chamamento era assim:
-quenina, quenina...quenina...
- piu...piu...piu...
E não é que elas vinham mesmo?
Às vezes também metiam um molhinho de couves preso com uma pedra e as galinhas ali depinicavam. Havia também a pia de pedra, onde bebiam.
Para as enxotar:
- xô...xô...xô...

O porco
O porco era dos animais mais queridos das famílias. Não por amor ao animal, mas porque com a matação a família tinha carne para todo o ano e daí, claro,o grande amor e amizade ao marrano. E como é que chamavam os porcos?
- Reco-reco-reco!

As vacas
Como falavam com elas?
As vacas tinham nomes, como os cães. Havia a Bonita, Amarela, a Castanha, a Malhada, etc...e falavam-lhes com autoridade:
- Volta cá Bonita (ou outro nome que dessem ao animal, ele entendia!), vem cá ao rego! E aquele típico "eia,ou, ao rego ou!". Os animais gostavam.

O burro e a burra
Quando se zangavam com estes animais, não os tratavam mal, os donos até eram pacientes:
- Arreda! Chega!
- Arre! 

As cabras e as ovelhas
Para se falar com os caprinos era assim:
-Chiiiiba! Chiiiba! Oh, tchibinha!
Para comer:
- Mé-mé-mé...
Com os ovinos, era mais berrar a imitar a sua própria voz.

Os coelhos
Nada de especial, não tinham nome, nem havia conversa com eles.Gostavam deles, mas não eram muito acarinhados com palavras...

Foto, Galinhas: cortesia da Natália Cavaca.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Os ensaiados

Andavam endiabrados
Por ser este aquele dia,
Tão felizes e contentes
Recuando no passado
Carregados de alegria,
Eles e as nossas gentes
Os tantos que assistia,
Voltavam a ser crianças
E podiam fazer tudo,
Felizes nestas andanças
Não fora dia de Entrudo!


Trago desta forma singela o Entrudo de Forninhos, como tributo aos que teimaram manter o espírito deste evento, à nossa maneira. 
Uns partiram tal como a tia Céu (a Rainha) e o meu tio António a tocar o bombo, quem diria, mas afinal tinha sido bombeiro toda a vida.
- Este ano, vais-te ensaiar de quê?
E moita carrasco...seja surdo e mudo se vou dizer, e por aqui se quedava a coisa, que afinal nada tinha de segredo, as calças do pai, o avental da mãe, as meias da irmã enfiadas cara abaixo, mais o chapéu velho do avô.
E falando, eles contavam eufóricos as traquinices matreiras dos seus tempos de juventude, de como pensavam enganar primeiro os vizinhos e depois o povo todo, quase sempre com a ajuda das mães mais  festivaleiras e cúmplices, como foi comigo.
Quanto aos mascarados, aí, alto e pára o baile...
Medo metia a carranca do tio Zé Carau, medonha!
Era um corropio de gente a fugir do largo da Lameira afora, aquela coisa ia connosco para a cama e durante dias não deixava dormir. Era o momento de terror que quase todos temiam, mas não queriam perder e pelo meio tantas coisas...
Diabruras do tio Abel peleira, a burra do tio Carlos melias, os alacraus do Luis mudo e o espalha brasas do Zé Coelho que com a pá limpava a Lameira com terra para quem apanhava pela frente, antes de estar calcetada.
Mas e deixem que diga, a tradição não está perdida pois o saudoso tio Zé Carau deixou muitos netos teimosos nestas coisas...

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Ditos de Fevereiro

Dizem na nossa terra que "a neve que em Fevereiro cai nas serras poupa um carro de estrume às terras", mas de um modo geral, em Portugal, Fevereiro não é um mês muito apreciado, porque em Fevereiro o sol já aquece um pouco e é portador de doenças, daí os provérbios "Fevereiro matou a mãe ao soalheiro" ou "Fevereiro quente traz o diabo no ventre".
Também as velhas do soalheiro depreciavam Fevereiro ao dizer que "Fevereiro trocou dois dias por uma tigela de papas", referindo-se às papas gordas que se comiam pelo Entrudo, feitas na água onde se coziam as carnes e uma choiriça dos boches.
E a maioria dos nossos agricultores acreditam que Fevereiro não é um mês bom para a agricultura, devido às condições atmosféricas (conhecidas pela sua irregularidade), se calhar por isso depara-mo-nos com provérbios antagónicos, exemplo: "vai-te embora Fevereiro que não me deixaste nenhum cordeiro" ou "vai-te embora Fevereiro de vinte e oito, que deixaste os meus bezerrinhos todos, oito".
Mas o calendário agrícola diz-nos que é no mês de Fevereiro que se deve começar a enxertia "em dia de S. Matias começam as enxertias", utilizando castas apropriadas, nos locais abrigados. Isto porque São Matias era comemorado no dia 24 de Fevereiro (actualmente a sua comemoração litúrgica ocorre no dia 14 de Maio). 
Para além dos trabalhos na vinha, também há que fazer na adega, estrafegar o vinho.
Ficamos por aqui e aguardamos a vossa participação, se aceitarem o desafio de complementar, com outros provérbios que se relacionem com o mês em curso.



A foto foi tirada pelo XicoAlmeida que a oferece ao blog  ゚・。.。Céus e palavras...゚・。.。... da Chica✿ .